Entrevista concedida a revista IstoÉ Gente em 2006.
Texto de Jonas Furtado.


(IstoÉ Gente) O que mudou na sua vida desde o começo da carreira até os dois prêmios consecutivos no VMB?
(Pitty) Tudo mudou, né (reflexiva). Não tudo, na verdade – a essência continua a mesma. As coisas externas mudaram. E algumas coisas internas também, no sentido de aprendizado. Sendo pragmática: hoje posso viver de música, pagar minhas contas, e tenho a sorte de fazer algo que gosto. Não imaginava que isso pudesse acontecer. O lado ruim é que não sou exibicionista. E quando você está nessa posição, passa a ser visto, e eu gosto mais de ver. Sou meio bichinho do mato, principalmente com quem não conheço. E todo mundo me conhece por causa do meu trabalho, mas eu não conheço ninguém.

(IstoÉ Gente) Quando o assédio incomoda?
(Pitty) Quando rola falta de respeito, quando a pessoa se acha dona de você porque você é artista. Falta de respeito me irrita profundamente, não só com relação a assédio de fãs, mas na vida, entre as pessoas em geral. Todo mundo precisa ter seus momentos de solidão, de introspecção – e parece que você se torna meio uma propriedade pública.

(IstoÉ Gente) Você é ídolo de milhares de adolescentes. Preocupa-se em ser um exemplo para os fãs?
(Pitty) Não posso me responsabilizar pelos outros. Cada um tem o seu livre arbítrio. Não quero salvar ninguém, seria muita pretensão assumir o papel de redentora. Cada um tem que ser responsável pelas próprias escolhas. Ninguém vai poder dizer “ah, fiz isso porque a Pitty faz”. Se eu faço ou não é problema meu, estou agindo dentro da minha vida, do meu universo.

(IstoÉ Gente)Já sentiu pessoas olhando feio para você na rua por causa do seu estilo?
(Pitty)O Brasil é um país hipócrita, porque permite um monte de coisas e finge que não permite outras por falso moralismo. Em certos lugares, algumas pessoas ainda ficam assustadas (comigo), mas em São Paulo, onde moro, acontece muito menos, porque já há uma cultura de existirem pessoas muito diferentes. Agora, lá em Salvador eu era um alien – principalmente por causa do clima, você usa menos roupa porque faz muito calor, então está tudo mais exposto, as tatuagens e tal. Já sentou velhinha do meu lado no ônibus, me olhou inteira e deu um folheto de “Jesus te ama”. Quem vê tatoo não vê coração (risos).

(IstoÉ Gente) Incomoda-se com o título de “musa do rock”?
(Pitty) Não chega a ser um incômodo. Só não gosto que o foco fique distorcido. É bacana, agradável, mas não incrível. Minha vaidade caminha por outros lados.


(IstoÉ Gente) Você é vaidosa? Perde horas se arrumando para ir a uma festa?
(Pitty) Depende muito do meu astral. Tem dia que dou uma de menininha e tal. Brinco dizendo que eu aprendi a ser gay. Sempre fui muito moleque: tênis All Star, calça, camiseta e f... Maquiagem nem pensar, unha, p. nenhuma. Fui ficando mais velha e comecei a me interessar por umas coisas de menina que não me interessavam antes. Estou aprendendo a ter esse lado. Mas também não é algo que me ocupe tanto.

(IstoÉ Gente) Tem dias de patricinha? De sair às compras, ir ao shopping...
(Pitty) De compras nem f., alguém precisa me arrastar. Só compro o que preciso e ainda assim compro com pena. Sou bastante econômica.

(IstoÉ Gente) É pão-duro?
(Pitty) Não me considero. Pão-duro é avarento. Não chego a ser avarenta, sou generosa com as pessoas que precisam, não tenho pena de gastar dinheiro com o que acho necessário, só não gasto com supérfluo. E para mim coisas materiais geralmente são supérfluas. Não hesito em gastar com uma boa viagem, porque sei que vai me proporcionar cultura, conhecimento, sensação. Mas não tenho coragem de gastar grana com um vestido, um sapato.

(IstoÉ Gente) Tem um limite? Um vestido de R$ 500, por exemplo.
(Pitty) É um absurdo porque eu sempre comparo com o salário mínimo – não sei porque ainda faço isso. Na hora na minha cabeça a associação é “não, como assim, o salário mínimo é um terço disso, não pode” (risos). Mesmo que tenha para gastar, acho um abuso com o resto do mundo.

(IstoÉ Gente) Dava dor de cabeça para sua mãe na adolescência?
(Pitty) Muito, coitada da minha mãe. Hoje eu venero ela. Deve ter sido difícil lidar com uma adolescente que sabia muito o que queria, mesmo que parecesse completamente absurdo. O fato de eu não ouvir os conselhos, ou de olhar para ela naquele momento e dizer “o que é isso, coroa, você não sabe p. nenhuma, eu que sei”. Para ela deve ter sido muito decepcionante, muito angustiante lidar com isso. Ela achava que eu devia estudar, fazer faculdade – e, quando eu fui fazer faculdade, fiz música. Aparecia todo dia com uma tattoo diferente e ela “ai, meu Deus, você não vai arrumar emprego em lugar nenhum”. Fui meio camicase, podia ter realmente quebrado a cara do jeito que ela imaginava.

(IstoÉ Gente) E hoje, é sua fã? Vai aos shows?
(Pitty) Minha mãe é mais bicho do mato do que eu. Odeia badalação, odeia pessoas, odeia o mundo. Ela gosta dela, da casinha dela e dos livros dela – é muito parecida comigo nesses aspectos. Mas ela vai aos shows quando pode, e dá valor. Hoje a gente tem uma relação bem bacana, e isso foi uma grande vitória porque a gente passou a vida inteira como cão e gato. Minha mãe era minha maior inimiga e eu a dela, provavelmente.

(IstoÉ Gente) Continua sem falar com seu pai?
(Pitty) Não tenho contato com ele. Acho que faz uns 10 anos.

(IstoÉ Gente) Por quê?
(Pitty) Um dia parou, e parou.

(IstoÉ Gente) Sente vontade de procurá-lo?
(Pitty) Não, se rolasse uma vontade muito grande já teria acontecido. Acho que ele não precisa de mim, eu não preciso dele e está tudo certo.

(IstoÉ Gente) Você fez 29 anos. Está preocupada com as mudanças no corpo?
(Pitty) Que nem toda mulher, que às vezes acorda e fala “essa m. dessa bunda flácida”. Mas também no outro dia já estou “ah, quer saber? Estou aqui, estou bombando”. Não tenho muito problema com isso talvez por causa da genética. Amadureci muito tarde. Na adolescência isso era um problema, eu com 18 anos parecia 12. Magrelinha, não tinha corpo, todas as minhas amigas já eram peitudas, bundudas, gostosas. Hoje isso é uma vantagem porque minhas amigas que estavam gostosas com 18 hoje estão umas mocréias. E eu tô tipo com 20 anos, adorando.

(IstoÉ Gente) Você já pensa em ter filhos?
(Pitty) Até nisso ainda estou dez anos atrás. Ainda não bateu essa onda, não. Nem penso, não tem como. Quero pegar a mochila, botar nas costas e me picar para algum lugar que acabei de decidir. E com filho isso muda, você tem que ter toda uma programação. Gosto de ser muito livre e não ter nenhum laço.

(IstoÉ Gente) As cantoras baianas sempre fizeram sucesso, mas com estilos diferentes do seu. O que pensa da música de Daniela Mercury?
(Pitty) Ela teve uma importância muito grande na história da música baiana, dessa música regional, e conseguiu fazer coisas fora também. Com certeza a obra dela é relevante para muita gente. Para mim, não tanto.

(IstoÉ Gente) E da Ivete Sangalo?
(Pitty) Não consigo assimilar a música dela, mas respeito a Ivete pela pessoa que ela é. Não estou nem aí se ela quer fazer uma música falando de amor, se curte axé, rumba ou salsa. E ela provavelmente não está nem aí se o meu rock tem guitarra demais ou se é barulhento demais. O importante é quando a gente olhou uma para a cara da outra, a gente conseguiu se olhar no olho e dizer “p., negona, beleza, faça o seu aí que eu tô fazendo o meu aqui, boa sorte”. É uma pessoa autêntica.


Fim
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